IA pode destravar bilhões em marketing, mas a mensuração ainda é o gargalo estrutural

A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa para se tornar um vetor real de eficiência em marketing. No entanto, existe um paradoxo que o mercado começa a encarar com mais clareza: não é a falta de IA que limita os investimentos, é a incapacidade de mensurar corretamente seus impactos.

Estudos recentes apontam que mais de US$ 30 bilhões em investimentos poderiam ser destravados globalmente se as empresas resolvessem seus desafios estruturais de mensuração. O problema não está na ausência de dados, mas na incapacidade de transformá-los em decisões confiáveis.

O colapso dos modelos tradicionais de mensuração

Durante décadas, o marketing operou com modelos relativamente estáveis de atribuição, last click, MMM tradicional, métricas de mídia isoladas. Esse modelo foi quebrado por três forças simultâneas: fragmentação extrema de canais, restrição de dados (privacy, fim dos cookies) e complexidade da jornada omnichannel

O resultado é um cenário onde o ROAS é inflado ou subestimado dependendo da metodologia, incrementalidade é raramente isolada corretamente e métricas de awareness e conversão não conversam entre si. A consequência direta? CFOs passam a desconfiar do marketing como centro de investimento escalável.

IA não resolve mensuração, ela amplifica o problema existente

Existe uma narrativa perigosa no mercado: a de que IA, por si só, resolverá o problema da mensuração. Não vai. Na prática, a IA depende de três pilares que ainda são frágeis na maioria das organizações:

  1. Qualidade de dados (first-party data estruturado)
  2. Arquitetura de integração (CRM, CDP, AdServer, POS, e-commerce)
  3. Modelos de inferência confiáveis (incrementalidade, causalidade)

Sem isso, a IA apenas escala o erro. Ou pior: automatiza decisões baseadas em métricas equivocadas.

O verdadeiro papel da IA: inferência e não apenas automação

Quando bem aplicada, a IA não deve ser vista como ferramenta de automação de mídia, mas como motor de inferência causal. Isso significa evoluir de perguntas como: “Qual canal performou melhor?”

Para perguntas mais sofisticadas:

  • “Qual canal gerou incremento real de receita?”
  • “Qual exposição alterou comportamento de compra?”
  • “Qual combinação de estímulos maximizou LTV?”

Aqui, entram capacidades como modelos probabilísticos de atribuição, experimentação contínua (A/B testing em escala), media mix modeling com machine learning e predição de elasticidade de investimento

Retail Media: o laboratório mais avançado de mensuração

Dentro desse contexto, o Retail Media surge como o ambiente mais fértil para evolução da mensuração. Por quê? Porque ele conecta três dimensões críticas: exposição de mídia (onsite, in-store, offsite), identidade do shopper (CRM, first-party data) e conversão real (sell-out no PDV e e-commerce)

Essa capacidade fecha o loop que o mercado sempre buscou, mas existe um problema: Mesmo no Retail Media, poucos players medem incrementalidade real. A maioria ainda opera com ROAS inflado por atribuição determinística; relatórios baseados em correlação, não causalidade; falta de controle experimental, ou seja: um ambiente com potencial máximo, mas execução ainda imatura.

A nova fronteira: mensuração baseada em causalidade

A evolução real da mensuração passa por abandonar métricas de conveniência e adotar modelos de causalidade. Isso inclui testes de holdout (grupos expostos X não expostos), Geo experiments, Synthetic control models e Bayesian inference.

A IA entra como aceleradora desses modelos, permitindo escalar experimentação, reduzir custo analítico e detectar padrões invisíveis ao modelo humano.

O impacto direto na alocação de budget

Quando a mensuração evolui, algo estrutural acontece rápido: o budget cresce, não porque há mais verba, mas porque o risco percebido diminui, a previsibilidade aumenta e a confiança do C-level se fortalece.

Empresas que conseguem provar incrementalidade real redirecionam verba de canais ineficientes, aumentam investimento em canais mensuráveis e criam vantagem competitiva estrutural.

O verdadeiro gargalo não é tecnologia, é governança!

Apesar de toda sofisticação técnica, o maior desafio continua sendo organizacional: falta de alinhamento entre marketing, dados e finanças; incentivos desalinhados (KPIs de curto prazo X valor de longo prazo); e resistência a abandonar métricas “confortáveis”. Mensuração de verdade exige muita transparência, rigor científico e mudança cultural.

Sem mensuração, não existe IA que salve o marketing

A indústria está diante de uma bifurcação clara: continuar operando com métricas frágeis, limitando investimento ou evoluir para modelos de mensuração causal, destravando crescimento.

A indústria de marketing entra em uma nova fase, onde o diferencial competitivo não está apenas na capacidade de executar campanhas, mas na habilidade de provar seu impacto.

A inteligência artificial será um componente central dessa transformação. No entanto, seu valor real só será capturado por organizações que resolverem primeiro seus fundamentos de mensuração.

O cenário que se desenha é claro: quem dominar mensuração baseada em causalidade não apenas melhora performance, redefine o tamanho do próprio mercado em que atua.

A IA será peça central nesse processo, mas não como solução mágica. Ela será o amplificador de quem já fez o dever de casa. E o recado é direto: quem resolver mensuração primeiro não só melhora performance, redefine o tamanho do próprio mercado. E, diante disso, a pergunta que fica não é se a IA vai transformar o marketing, mas sim quem estará preparado para medir e capturar, esse valor primeiro.

Ricardo Vieira
Ricardo Vieirahttp://www.digitalstoremedia.com.br
Ricardo Vieira atua em diferentes canais e segmentos há 30 anos no varejo brasileiro, é fundador da ABRAMEDIA e da DIGITAL STORE MEDIA, criado para fomentar todo ecossistema de Retail Media no mercado brasileiro, também dirige o Clube do Varejo, criado em 2019 para desenvolver pequenos varejistas. Ele também fundou e preside o Instituto Nacional do Varejo (INV), promovendo a indústria varejista desde 2017 com soluções inovadoras. Desde 2006, é sócio-diretor da TRADIUM, focada em soluções tecnológicas! Criou o Retail Media Academy, Retail Media News e Retail Media Show para fomentar a excelência em mídia e varejo. Com expertise em inteligência de vendas, trade marketing, CRM e fidelidade, Ricardo lidera projetos de inteligência para indústria e varejo. Sua trajetória inclui papéis significativos como VP de Sustentabilidade na ABRALOG e Coordenador Regional de Projetos na Ambev.

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