GLP-1 deixou de ser uma tendência farmacêutica. Está se tornando uma nova infraestrutura de consumo

A adoção dos medicamentos avança em velocidade exponencial nos Estados Unidos, enquanto empresas como Hershey já transformam comportamento de usuários em inteligência de shopper, inovação e estratégia de portfólio. A questão para CPG, varejo e Retail Media deixou de ser “quanto o consumidor vai comer menos?” e passou a ser “como capturar valor quando a lógica de consumo muda?”.

Durante os primeiros anos da discussão sobre GLP-1, boa parte da indústria de consumo tratou medicamentos como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound como uma variável essencialmente farmacêutica.

Depois, a discussão migrou para outra pergunta: quanto os medicamentos para obesidade poderiam reduzir o consumo de alimentos? Em 2026, essa pergunta já parece insuficiente.

Os novos dados sugerem que estamos entrando em uma terceira fase — muito mais estrutural — na qual GLP-1 começa a interferir não apenas na quantidade consumida, mas na arquitetura de decisão do shopper: saciedade, frequência, composição nutricional, tamanho de porção, indulgência, ocasiões de consumo, foodservice, saúde, beleza, personal care e até nas razões pelas quais determinados produtos entram na cesta.

E existe um número que deveria estar nas apresentações estratégicas de praticamente todo fabricante e varejista de alimentos dos próximos anos: 11% dos adultos americanos já utilizam GLP-1 para perda de peso. Em 2024, eram apenas 3%.

Ou seja: a penetração praticamente quadruplicou em apenas dois anos. Além disso, 15% dos adultos americanos afirmam já ter utilizado essas terapias em algum momento e 91% conhecem os medicamentos destinados à perda de peso. O que até recentemente poderia ser tratado como comportamento de nicho está rapidamente adquirindo escala populacional. E isso muda tudo.

De medicamento para variável macroeconômica de consumo

A pesquisa de julho de 2026 da Gallup talvez seja um dos sinais mais importantes dessa mudança. Além da expansão de 3% para 11% no uso atual entre 2024 e 2026, a Gallup identifica simultaneamente uma queda na taxa de obesidade adulta nos Estados Unidos.

Depois de atingir 39,9% em 2022, a obesidade recuou para 36,4% em 2026. A própria Gallup observa que a tendência ocorre paralelamente à expansão da utilização de GLP-1, embora isso, isoladamente, não permita atribuir causalidade integral aos medicamentos.

Do ponto de vista de mercado, entretanto, há algo talvez ainda mais importante acontecendo. Quando milhões de consumidores modificam simultaneamente a relação com fome, saciedade, quantidade, saúde e alimentação, GLP-1 deixa de ser apenas uma categoria farmacêutica e passa a funcionar como variável de demanda. É semelhante ao que ocorreu quando smartphones modificaram mídia, pagamentos e comércio. O impacto econômico mais relevante de uma tecnologia nem sempre permanece na categoria onde ela nasceu.

O erro estratégico: acreditar que GLP-1 significa simplesmente “comer menos”

Essa talvez seja a interpretação mais perigosa para fabricantes e varejistas. Os dados disponíveis apontam para algo muito mais sofisticado: a cesta não necessariamente desaparece; ela é reconstruída.

A Circana estima que lares usuários de GLP-1 já representam 23% dos domicílios americanos e poderão responder por 35% das unidades de alimentos e bebidas vendidas nos Estados Unidos em 2030. Isso significa que discutir GLP-1 apenas como risco de redução de volume pode levar empresas a atacar o problema errado.

Em outro estudo, a Circana encontrou praticamente a mesma quantidade de itens por viagem entre lares GLP-1 e a média do mercado: 26 itens versus 25,1, respectivamente. A frequência também permaneceu semelhante: oito viagens mensais contra 7,9 na média.

A disrupção, portanto, não ocorre uniformemente na cesta, ela acontece dentro da cesta. Proteína ganha relevância. Fibra ganha relevância. Vegetais ganham relevância. Hidratação ganha relevância. Healthy fats ganham relevância. Produtos convenientes e nutricionalmente densos ganham relevância. Enquanto açúcar, carboidratos e determinadas categorias altamente calóricas enfrentam maior pressão. Estamos potencialmente diante de uma enorme redistribuição de wallet entre categorias.

A Hershey descobriu algo ainda mais provocativo: GLP-1 pode reduzir culpa sem eliminar indulgência

A resposta estratégica da The Hershey Company merece atenção porque mostra como organizações avançadas estão deixando de analisar GLP-1 exclusivamente através de sell-out e começando a investigar a psicologia por trás da transformação.

A empresa pesquisou milhares de usuários e levou sua equipe de Consumer Insights e executivos para conversar diretamente com consumidores e seus círculos sociais, inclusive dentro de suas casas.

O objetivo era compreender algo que scanner data sozinho dificilmente explicaria: como GLP-1 está mudando a relação emocional das pessoas com comida. Uma das descobertas reportadas pela companhia é especialmente interessante.

Usuários descreveram redução do chamado “food noise”, pensamentos persistentes relacionados a comida, e maior sensação de controle sobre o que comem. Paradoxalmente, isso não necessariamente elimina chocolates, snacks ou indulgência. Pode inclusive tornar psicologicamente mais fácil mantê-los dentro de casa.

Consumidores entrevistados disseram sentir maior liberdade para possuir alimentos de que gostam porque acreditam conseguir consumi-los sem perder controle. Essa observação desafia uma hipótese central da indústria.

GLP-1 pode não destruir indulgência. Pode redefinir a unidade econômica da indulgência. Menos quantidade, mais controle, porções menores, possivelmente maior qualidade percebida, maior densidade de experiência por caloria e, potencialmente, maior espaço para premiumização.

O futuro do snack pode ser menor e valer mais

Se essa hipótese se confirmar em escala, fabricantes precisam reconsiderar uma equação histórica: volume ≠ valor. Durante décadas, grande parte do crescimento de FMCG esteve associada a frequência, quantidade e aumento de consumo.

GLP-1 introduz outra possibilidade:

menor volume fisiologicamente necessário + maior exigência funcional + maior seletividade = oportunidade de maior valor por ocasião.

Nesse ambiente, embalagem e portion architecture deixam de ser apenas decisões industriais. Tornam-se parte do produto. Mini portions, single serve, resealable packs, snacks proteicos, produtos nutricionalmente densos, hidratação funcional e pequenas indulgências podem assumir importância desproporcional.

A pergunta deixa de ser: “Como vender mais comida?” E passa a ser: “Como capturar mais valor em cada ocasião quando o consumidor precisa de menos quantidade?”

O caso Ice Breakers mostra como novas ocasiões podem surgir onde ninguém estava olhando

Talvez o melhor exemplo da complexidade dessa transformação esteja em uma categoria aparentemente distante da discussão sobre obesidade: gomas e balas de menta.

A Hershey reportou crescimento de 7,1 pontos nas vendas no varejo de seu portfólio de refreshment no acumulado do ano, enquanto consumidores entrevistados mencionaram uso de gums e mints para frescor, boca seca, náusea e simplesmente para satisfazer a vontade de mastigar ou experimentar um pequeno estímulo doce sem sensação de saciedade.

No primeiro trimestre de 2026, a companhia também havia reportado crescimento superior a 8% nas vendas de Ice Breakers. Esse fenômeno é estrategicamente relevante porque demonstra que GLP-1 não cria apenas vencedores e perdedores entre categorias existentes.

Pode criar novas occasions e novos jobs-to-be-done para produtos já existentes. Esse é exatamente o tipo de mudança que modelos tradicionais de category management podem demorar para detectar.

Functional Snacking pode ser uma das grandes arenas competitivas

A Hershey já trata functional snacking como plataforma estratégica de crescimento. Seu portfólio de protein bars registrou aumento de consumo de 17% no primeiro trimestre de 2026, enquanto LesserEvil cresceu mais de 65% em retail sales no período.

Não significa que todo esse crescimento seja provocado por GLP-1, significa algo mais importante: as mesmas forças que impulsionam GLP-1, weight management, proteína, ingredientes percebidos como melhores, controle de porção e wellness, estão convergindo com tendências que já transformavam o mercado.

GLP-1 funciona, portanto, como acelerador de tendências anteriores: Health & wellness, Proteinization, Functional foods, Reduced sugar, Hydration, Gut health, Portion control, Premium permissible indulgence. A indústria não está diante de uma única tendência. Está diante da convergência delas.

E o restaurante? Menos abandono, mais reengenharia do pedido

Outro mito começa a cair: o de que usuários simplesmente deixarão de frequentar restaurantes. Dados da Circana mostram frequência relativamente estável, mas mudança na composição dos pedidos.

Durante o primeiro ano de uso, usuários reduziram em aproximadamente 1% o número médio de itens por visita e passaram a privilegiar pratos principais em detrimento de acompanhamentos, snacks e pães.

Entre eles, 63% dizem procurar mais vegetais e 55% mais frutas. Smoothies aparecem entre as categorias beneficiadas, enquanto o consumo de álcool também enfrenta pressão. Isso cria outra provocação.

O problema do foodservice talvez não seja traffic. Pode ser ticket architecture.

Se appetizers, sides, sobremesas e bebidas alcoólicas perderem participação, operadores terão que reconstruir margem através de produtos funcionais, bebidas premium sem álcool, proteínas, ingredientes nutricionalmente densos e portionamento inteligente.

O próximo campo de batalha será Category Management

Durante décadas, planogramas foram construídos principalmente através de penetração, frequência, giro, margem, basket affinity, ocasião e missão de compra.

GLP-1 adiciona uma nova variável: estado metabólico e objetivo de saúde do shopper. Isso não significa identificar indivíduos ou inferir condições médicas para segmentação publicitária, algo que exige extremo cuidado regulatório e de privacidade.

Significa reconhecer, em nível agregado e seguro, que comportamentos de saúde estão reorganizando demanda. Supermercados e farmácias precisarão perguntar:

Qual deve ser o espaço dedicado a protein snacks?

Quais categorias perderão facings?

Quais adjacências passam a fazer sentido?

Onde entram hydration, gut health e supplements?

Qual é a nova arquitetura de portions?

Como organizar permissible indulgence?

E talvez a pergunta mais importante: o planograma atual representa o consumidor de ontem ou o consumidor metabolicamente transformado de amanhã?

Retail Media terá que sair da segmentação demográfica e entrar na lógica de missão

Existe aqui uma oportunidade gigantesca para Retail Media Networks. A transformação provocada por GLP-1 é praticamente um laboratório perfeito para closed-loop measurement.

Retailers possuem sinais de: busca → exposição → compra → recompra → mudança de cesta → substituição de categoria → frequência.

Isso permite medir algo que mídia tradicional dificilmente consegue observar: category migration.

Imagine analisar, de maneira agregada e compatível com regras de privacidade, cohorts comportamentais que progressivamente aumentam compras de proteínas, frutas, vegetais e hidratação enquanto reduzem açúcar e determinadas categorias.

A oportunidade não é simplesmente vender mídia para uma marca de protein bar. É compreender a sequência da transformação da cesta.

Quem detectar essa sequência primeiro poderá construir audiences contextuais, recommendation engines, bundles, cross-selling e experiências comerciais radicalmente superiores, mas há um limite fundamental: saúde é dado sensível. Retail Media não deveria transformar prescrição, diagnóstico ou inferências médicas em mecanismo indiscriminado de targeting.

A oportunidade está em shopper behavior, não em exploração de condição médica.

A maior mudança pode estar fora de Food & Beverage

A Circana já identifica efeitos em categorias não alimentares.

Consumidores GLP-1 apresentam demanda associada a produtos gastrointestinais e também oportunidades em fitness trackers, garrafas de água, equipamentos de exercício, personal care e outras categorias ligadas à transformação do estilo de vida.

Isso sugere um conceito estratégico maior: GLP-1 não é uma categoria. É um ecossistema de consumo.

Pharma → alimentação → bebidas → suplementos → beleza → fitness → apparel → personal care → foodservice → tecnologia → mídia.

Poucas transformações recentes têm capacidade semelhante de atravessar tantas indústrias simultaneamente.

O Brasil deveria observar agora, não quando a curva estiver madura

Existe um erro recorrente na estratégia latino-americana: observar mudanças estruturais no mercado americano como fenômenos distantes e esperar sua maturação local para reagir.

Com GLP-1, isso pode custar caro. O aprendizado internacional já permite que varejistas, indústrias e plataformas brasileiras construam hipóteses antecipadamente. Não é necessário esperar milhões de consumidores brasileiros mudarem suas cestas para começar a testar:

novos sortimentos, arquitetura de porção, proteinização, permissible indulgence, functional snacking, hydration, category adjacency, conteúdo nutricional, novos bundles e modelos de Retail Media.

O laboratório já está funcionando. Está nos Estados Unidos. E empresas como Hershey já estão entrando literalmente na casa do consumidor para compreendê-lo.

A provocação final: estamos medindo GLP-1 com KPIs antigos?

Talvez esse seja o ponto mais importante. Se uma companhia medir GLP-1 apenas através de queda de volume em chocolate, refrigerante, frozen food ou snacks, provavelmente verá somente uma pequena parte da transformação.

A métrica correta talvez seja: share of stomach → share of occasion → share of wallet → share of lifestyle.

O consumidor GLP-1 pode comer menos e simultaneamente exigir mais de cada produto, mais proteína, mais funcionalidade, mais conveniência, mais controle, mais qualidade, mais personalização. E até uma indulgência melhor.

O paradoxo econômico da GLP-1 pode ser justamente este: Menos consumo físico não significa necessariamente menos valor econômico. Significa que o valor migra. Entre categorias. Entre formatos. Entre ocasiões. Entre canais. Entre produtos. E entre marcas.

A corrida estratégica, portanto, não será vencida pela empresa que descobrir primeiro quanto o consumidor GLP-1 deixou de comer. Será vencida por quem descobrir antes dos concorrentes: para onde esse valor está indo.

E essa talvez seja uma das maiores oportunidades de Shopper Intelligence, Category Management e Retail Media da próxima década.

Fontes principais: pesquisa Gallup publicada em 7 de julho de 2026; pesquisa de shopper da Hershey divulgada em agosto de 2026; estudos de comportamento de consumo da Circana; comunicações corporativas da Hershey.

Ricardo Vieira
Ricardo Vieirahttp://www.digitalstoremedia.com.br
Ricardo Vieira atua em diferentes canais e segmentos há 30 anos no varejo brasileiro, é fundador da ABRAMEDIA e da DIGITAL STORE MEDIA, criado para fomentar todo ecossistema de Retail Media no mercado brasileiro, também dirige o Clube do Varejo, criado em 2019 para desenvolver pequenos varejistas. Ele também fundou e preside o Instituto Nacional do Varejo (INV), promovendo a indústria varejista desde 2017 com soluções inovadoras. Desde 2006, é sócio-diretor da TRADIUM, focada em soluções tecnológicas! Criou o Retail Media Academy, Retail Media News e Retail Media Show para fomentar a excelência em mídia e varejo. Com expertise em inteligência de vendas, trade marketing, CRM e fidelidade, Ricardo lidera projetos de inteligência para indústria e varejo. Sua trajetória inclui papéis significativos como VP de Sustentabilidade na ABRALOG e Coordenador Regional de Projetos na Ambev.

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